Covid-19: como será o mundo pós-pandemia, no qual não poderemos nos abraçar

Na última sexta (22) foi o Dia Internacional do Abraço. Diante da situação que estamos vivendo, na qual não podemos chegar perto uns dos outros, várias iniciativas em todo o mundo foram divulgadas para comemorar a data. Em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, imagens de pessoas se abraçando foram projetadas nas fachadas dos prédios em grandes avenidas. Vídeos e ilustrações com abraços virtuais foram divulgados pelo WhatsApp e nas redes sociais. No dia em que o Brasil passou a ocupar o posto de segundo país com o maior número de contaminados pelo novo coronavírus no mundo, com 330.890 casos confirmados e 21.048 mortes – perde apenas para os Estados Unidos –, mensagens circularam pela internet com palavras de encorajamento, dizendo que “vai passar”. A dúvida é: vai passar, mesmo?

Já sabemos que, quando sairmos do confinamento social, o mundo será diferente. O normal que conhecíamos antes da pandemia não existirá mais. O uso de máscaras e álcool gel continuarão sendo hábitos do cotidiano. Teremos de evitar aglomerações e não poderemos chegar muito perto uns dos outros. Ou seja: beijos e afagos, que na nossa cultura são demonstrações explícitas de afeto, estarão vetados. Como conseguiremos sobreviver a isso? 

Vários estudiosos enfatizam a importância do contato físico para o bem-estar psíquico do indivíduo. O antropólogo britânico Ashley Montagu afirma, em seu livro Tocar: o Significado Humano da Pele (1971), que as comunicações que transmitimos por meio do toque são o mais poderoso meio de criar relacionamentos humanos. Em seu estudo com bebês hospitalizados, o psicanalista austro-americano René Spitz observou que, entre os recém-nascidos que careciam do toque de suas mães ou substitutas, a taxa de mortalidade era mais alta. Pesquisas do Touch Resource Institute (Instituto de Estudos do Toque), da Escola de Medicina da Universidade de Miami, mostram que o contato físico pode contribuir para o fortalecimento do sistema imunológico, evitando doenças sobretudo em crianças. 

Curiosamente, o mesmo toque que cura tornou-se um transmissor de doenças em potencial. Abraços estão contraindicados por tempo indeterminado. Reencontrar entes queridos após o fim do isolamento e ser obrigado a manter distância física deles será difícil no começo; mas conseguiremos nos adaptar. Carinho e afeto podem ser demonstrados de diversas maneiras: com palavras amorosas; atenção e consideração pelo outro; sorrisos e troca de olhares. Gestos como esses são capazes de aquecer o coração. “Sobreviveremos” assim até o momento em que, finalmente, tudo isso passar – sim, vai passar – e o “novo” normal puder trazer de volta trocas de abraços calorosos. 

 

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