COVID-19: Estamos preparados para voltar às ruas?

Nas últimas semanas, a despeito dos índices de infecção e de mortalidade da COVID-19 divulgados pelas secretarias de saúde dos estados, o movimento nas ruas começou a crescer. Na cidade de São Paulo, especificamente, as vias passaram a ficar congestionadas nos horários de pico e veem-se aglomerações em vários pontos, com muitas pessoas sem máscaras. Lojas e bares voltaram a abrir sem autorização da prefeitura, na expectativa de que, em 11 de maio, o isolamento social seja aliviado. É uma questão polêmica, pois o estado de São Paulo registrou na terça (28) um aumento recorde de ocorrências em um intervalo de 24 horas: foram 12% a mais de mortes e crescimento de 11% nos casos confirmados de COVID-19 em comparação ao dia anterior, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. A grande questão é: estamos realmente prontos para voltar às ruas?

Nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, muita gente revela seus planos para o pós-confinamento: churrasco com os amigos, festas para comemorar aniversários passados, viagem para pontos turísticos, curtição em baladas até o sol raiar. Trata-se de uma ilusão. Não voltaremos à rotina de antes, pois a normalidade que conhecíamos não vai mais existir. Se a restrição realmente for afrouxada, temos de ter em mente que não será uma liberação total; máscaras continuarão obrigatórias, precisaremos estar sempre carregando álcool gel e ainda será necessário manter uma determinada distância entre os indivíduos. Beijos, abraços e apertos de mão estarão vetados, assim como aglomerações em espaços fechados. É uma nova realidade que pode durar meses. 

Isso sem contar as mudanças que tendem a se tornar permanentes. Muitas empresas, ao perceber que seus funcionários são tão ou até mais produtivos trabalhando remotamente, podem ampliar a modalidade de home office e abrir mão de grandes escritórios físicos, afetando diretamente o mercado imobiliário. Serviços de delivery devem continuar prosperando, assim como os aplicativos para videoconferências. A médio e longo prazo, cargos que facilitam operações presenciais, como recepcionistas, manobristas e administradores prediais, podem ser reduzidos de maneira drástica ou até desaparecer. Não é todo mundo que vai ficar bem emocionalmente ao sentir na pele que o mundo não será o mesmo, ao contrário: nenhum de nós está, de fato, preparado para isso. Quanto mais expectativa se tiver sobre o fim do isolamento, maiores as chances de se frustrar e ficar angustiado. 

Quando voltarmos todos às ruas, perceberemos que a nova realidade não será tão diferente do que a que vivemos no confinamento; a mudança cultural de nossa sociedade já começou durante esse período. Ter consciência disso e aceitar essa condição é a melhor maneira de lidar com a nova situação sem tanto stress. Poderemos, sim, assimilar todas essas transformações, mas será aos poucos, com paciência e fé, ou seja, a crença de que vamos nos adaptar. É tudo questão de tempo. 

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