COVID-19: por que tanta gente está descumprindo o isolamento social, apesar dos riscos?

Em plena pandemia do novo coronavírus, várias cidades registraram aumento no movimento de pessoas nas ruas nos últimos dias. No estado de São Paulo, um dos mais atingidos, o índice de isolamento social era de 49% na semana passada, uma queda de 20%, se comparado com o início da campanha. Não existe uma razão concreta para essa atitude da população. Segundo o Ministério da Saúde, o pico dos casos de COVID-19 será entre abril e maio, ou seja: é exatamente agora que devemos adotar um confinamento ainda mais intenso. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, afirma que as medidas de contenção adotadas pela China (o país onde tudo começou) no início da pandemia, em janeiro, podem ter evitado pelo menos 1,4 milhão de casos e 56 000 mortes pela doença. São informações que estão sendo divulgadas exaustivamente pela imprensa e compartilhadas nas redes sociais. Por que, apesar de todas dessas evidências, tanta gente insiste em não cumprir os alertas?

Há uma explicação irracional para esse comportamento. Muita gente, no início da pandemia, se dispôs a adotar o isolamento social até antes da determinação do governo. Ficou duas semanas confinado, sem reclamar, cumprindo todos os protocolos. Mas, uma hora, isso cansou: o esgotamento chegou para quem mora sozinho e abriu mão da vida social, do contato com os entes queridos e encontros com o parceiro (a) ou crush; para quem passou a conviver 24 horas por dia com o cônjuge e virou professor do próprio filho, na educação à distância; e para quem vive com pais que se tornaram ainda mais controladores após a crise. 

No momento em que a situação tornou-se insustentável, muitos acabaram criando uma realidade paralela para justificar a si mesmos por que deveriam livrar-se do incômodo e retornar à liberdade. Alguns passaram a acreditar na barganha com uma “entidade superior”: a crença de que já tinham feito o suficiente para colaborar com a sociedade e, então, acumulado créditos para não serem contaminados pelo vírus; outros começaram a se convencer de que são imunes à doença – afinal, não tiveram sintomas até agora. E há ainda os que se valem da ideia de que “existe coisa muito pior, como dengue, desemprego etc.” para justificar seus atos. São indivíduos que precisam apenas de uma desculpa para burlar a regra. Bastou o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, dizer que não tem problema dar uma volta no quarteirão para tomar ar fresco, contanto que sejam respeitadas as distâncias entre as pessoas, que as ruas e praças ficaram lotadas de gente praticando atividades físicas – só que, ao contrário da recomendação do ministro, formaram-se grupos e aglomerações em vários lugares. 

O que dizer dessas pessoas que estão desrespeitando as advertências? Se considerarmos as recomendações da Organização Mundial de Saúde, elas estão agindo de maneira irresponsável, colocando em risco a própria vida e a de outros cidadãos. Mas também devemos levar em conta de que estamos falando de seres humanos com falhas e defeitos, pontos fortes e fraquezas. Como resolver esse impasse? A solução, a meu ver, é: não relaxar as regras de isolamento. Quando ocorre um fenômeno dessa magnitude, a primeira reação é a negação e a resistência; mas, com o passar do tempo, se as medidas restritivas continuarem, a tendência é a população se adaptar. Soluções como delivery de compras em geral e home office podem prosperar mesmo após o fim da pandemia não apenas pelas vantagens econômicas e sim, porque os próprios cidadãos estarão acomodados à nova realidade. É uma questão de ajustamento que, com paciência, perseverança, insistência e determinação, trará os resultados esperados.