Covid-19: por que o isolamento social pode colocar o casamento em risco?

Desde que a quarentena começou, os memes que mais tenho recebido via Facebook e grupos de WhatsApp estão relacionados ao impacto do coronavírus nos casamentos. São desabafos bem-humorados de homens e mulheres dizendo que o pior do confinamento é conviver 24 horas por dia, sob o mesmo teto, com seu cônjuge. O curioso é que ninguém questiona esses comentários, ao contrário; quem recebe essas mensagens geralmente se solidariza e até se identifica com elas. Não seria de se estranhar que isso aconteça? Afinal, lá atrás, esses casais supostamente se apaixonaram e ficaram juntos por livre-arbítrio. Alguns até juraram, perante um padre ou pastor, amor incondicional na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. O natural seria que ficassem bem juntos nesse confinamento. Ou não?

Por que o fato de ter de conviver 24 horas por dia sob o mesmo teto apavora? A principal razão é que não somos iguais. Cada um veio de uma família distinta e teve uma criação própria; e é difícil lidar com essa realidade. O problema se torna ainda maior porque, quando estamos apaixonados, ignoramos as diferenças; é como se estivéssemos completamente cegos nesse quesito. Com o passar do tempo, contudo, as distinções começam a ficar cada vez mais aparentes. E, quanto mais expectativas criamos na relação, mais difícil é aceitá-las. Uma professora que tive na faculdade, de Psicologia Jurídica, costumava dizer que homens e mulheres se separam por motivos diferentes: elas, porque acreditam que, depois do casamento, seus amados vão mudar; e eles não mudam. Eles, por sua vez, acham que elas não vão mudar – continuarão sendo as mulheres doces e pacientes da época do namoro –; mas elas mudam. O que ambos têm em comum: uma ideia irreal do que é o casamento. 

No dia a dia normal, em que marido e mulher se veem rapidamente na hora em que acordam e só se reencontram tarde da noite, na hora de dormir, as diferenças podem ficar camufladas. Mas quando são obrigados a conviver sem válvulas de escape, sem filtros, o tempo todo, essas diferenças tendem a tornar-se insuportáveis. Em situações mais críticas, há o risco de ocorrer graves crises conjugais que podem colocar a união em risco.

Qual seria a solução para isso? Antes de mais nada, é preciso admitir que as diversidades existem; levar em conta que o cônjuge, mais do que um sujeito cheio de falhas, é um ser humano de carne e osso, que teve uma história de vida distinta da sua. As divergências, na verdade, não são necessariamente negativas, ao contrário: aprender a conviver com elas é uma oportunidade de crescimento pessoal. Além disso, certamente há também qualidades que fizeram com que você se apaixonasse por essa pessoa e topasse dividir seu dia a dia com ela. Por que não valorizar esses pontos? Não se trata de uma tarefa fácil; mas possível. Um dos memes que recebi dizia: “se depois desse isolamento o casamento não acabar, aí vai durar pelo menos mais uns trinta anos”. Essa frase tem um fundo de verdade: o confinamento é a chance que temos de tornar nossas relações afetivas mais maduras e mais consistentes. Quem conseguir superar essa fase, certamente sairá mais fortalecido dela. 

 

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