Coronavírus: que lições podemos tirar a partir da Covid-19

Uma amiga minha jornalista me perguntou alguns dias atrás se eu gostaria de dar uma entrevista a ela para uma matéria sobre como lidar com a quarentena imposta pelo coronavírus. Naquele momento, eu não poderia falar porque estava prestes a entrar em um atendimento; mas, depois, fiquei pensando nesse tema. Trata-se de um período bastante difícil, não apenas pela doença em si, mas por todas as questões emocionais que ela acarreta, a começar pelo fato de ficar confinado dentro de casa, longe do convívio social, de uma hora para outra. Isso pode ser enlouquecedor, um pesadelo sem precedentes, um gatilho para liberar nossos “fantasmas” internos. 

Entrar em um isolamento compulsório significa abandonar o papel social e ser obrigado a olhar para si próprio sem artifícios, sem “maquiagem”: encarar-se como se é, de fato; algo, sem dúvida, assustador. É o momento em que temos de admitir que não somos os pais perfeitos – porque não temos a paciência mágica de lidar bem com os filhos 24 horas por dia –, nem possuímos o casamento dos contos de fada.  Conflitos que, muitas vezes, passavam despercebidos no cotidiano, podem tornar-se vorazes. Afinal, não existe mais a válvula de escape, a hora de relaxar com os amigos, de ver gente diferente em ambientes diversos, algo que garantia a nossa sanidade psíquica e evitava que as diferenças entre os casais, algo tão naturalmente humano, ficassem tão nítidas. 

Isso sem contar o desamparo causado pelo fato de depararmos, de maneira escancarada, com as nossas fragilidades. Com todos os avanços tecnológicos dos últimos anos, em que vemos inovações inacreditáveis a cada minuto, desenvolvemos a ilusão de que somos imbatíveis. O coronavírus nos tira desse pedestal e nos coloca em queda livre; “esfrega” na nossa cara que, em pleno século XXI, ainda somos finitos. É algo angustiante. 

Como lidar com esse momento? Antes de mais nada, é preciso aceitar que somos seres limitados. Podemos muita coisa, mas não tudo; essa é a nossa realidade. Admitir isso de “coração” tende a ser muito libertador. Olhar para si mesmo, sem máscaras, apesar de doloroso, também é uma oportunidade para refletir sobre os caminhos seguidos até então; e que caminhos vamos escolher daqui para a frente. Além disso, assumir nossas fraquezas, nossos defeitos, nos torna mais humanos: humanos capazes de conviver com o cônjuge e os filhos, por exemplo, da melhor maneira que nos for possível neste momento, de uma maneira mais honesta e verdadeira.

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