O que é a crise da meia-idade nos dias atuais?

Retratada em clássicos do cinema como O Pecado Mora ao Lado (1955), em que o personagem Richard Sherman (Tom Ewell) sente uma atração incontrolável por sua vizinha, vivida por Marilyn Monroe (foi nesse filme, aliás, que ela consagrou-se como símbolo sexual da época) e Beleza Americana (1999), no qual Lester Burnham, vivido por Kevin Spacey, se apaixona pela melhor amiga de sua filha adolescente, a crise da meia idade é um assunto que desperta discussões calorosas há gerações. Chamada também de “segunda adolescência”, essa turbulência ocorre entre os 40 e os 60 anos e é apontada como a responsável pelo abandono de empregos estáveis e términos de casamentos. 

De acordo com o psicanalista canadense Elliot Jacques, que criou a expressão “meia-idade”, trata-se da percepção de que todos nós vamos morrer algum dia – e, quanto mais velhos ficamos, mais próximos chegamos desse momento. É quando nos damos conta de que os sonhos da juventude não poderão ser realizados, e que, se quisermos mudar a direção de nossas vidas, precisamos agir rápido. No livro “Desenvolvimento Humano”, as autoras Diane Papalia, Sally Olds e Ruth Feldman escrevem que a meia-idade é o período no qual ocorre uma reflexão sobre tudo o que se viveu até então, uma reavaliação de valores e prioridades; e esse processo pode ser muito estressante. 

Ocorre que, de algumas décadas para cá, muita coisa em nossa sociedade mudou. Graças aos avanços da medicina e às novas descobertas científicas, estamos vivendo mais e melhor. Se antes os 65 anos eram uma fase para se aceitar as limitações impostas pela velhice, hoje é o período no qual podemos iniciar diversos projetos: adotar uma nova carreira, começar uma relação amorosa, fazer um mochilão pelo mundo. Diante desse cenário, ainda faz sentido dizer que chegamos à crise da meia-idade aos 40 e poucos anos? O que é esse fenômeno nos dias atuais?

Seria de se esperar que, com o aumento da expectativa de vida, chegássemos a esse conflito em uma idade mais avançada – 70 e poucos anos, talvez? Ou, pelo fato de estarmos vivendo mais e melhor, ele até deixasse de existir. Mas o curioso é que não é isso o que vem acontecendo, pelo contrário: a crise na faixa etária entre os 40 e os 60 anos está ainda mais intensa. Percebo, pelos casos que chegam ao consultório, que o sujeito atualmente nesse estágio tem experimentado um dilema sem precedentes; ao mesmo tempo em que não tem a visão tradicional e restritiva de seus pais, também não dá conta da ousadia dos jovens. É uma “geração sanduíche”, que fica no meio desses dois “mundos”. 

Apesar de já terem realizado vários projetos ao longo da vida, esses indivíduos sentem que continuam devendo à sociedade e se cobram demais por isso; veem-se obrigados a lidar bem com todas as inovações que têm transformando nosso cotidiano de maneira frenética – afinal, os mais novos tiram isso de letra –, e, quando não conseguem, sentem-se perdidos e frustrados. Além disso, o fato de estarmos vivendo mais cria a falsa ilusão de que a velhice nunca vai chegar. Aí, quando a pessoa percebe que essa não é a realidade, tende a vivenciar um enorme desamparo.

Como resolver essa questão? O primeiro passo, fundamental, é admitir que essa tribulação existe. Não somos imbatíveis; temos fraquezas e limitações, condições inerentes ao ser humano. Nós certamente não daremos conta de muitas novidades que surgem à nossa frente; e isso não é um problema. Além disso, a proximidade da idade avançada não precisa ser algo nocivo, pelo contrário: somos seres dinâmicos, em constante evolução, e existe em cada um de nós a capacidade de buscar um novo sentido para as mais diversas situações. Isso significa que projetos deixados para trás na juventude podem ser substituídos por outros tão ou mais gratificantes, de acordo com a fase em que nos encontramos na vida. 

Não existe fórmula mágica; esse processo exige maturidade – e humildade para admitir até que não se pode superar esse momento sozinho. Nesse caso, é fundamental contar com o apoio de familiares, amigos, ou até de um profissional, como o psicólogo. E, sim, passada essa etapa mais difícil, será possível sentir gratidão por tudo o que a vida lhe proporcionou até então e curtir o caminho escolhido para seguir nessa nova etapa de sua existência.