Nem todas as mulheres nasceram para ser mães; e isso não deveria ser um problema

Em abril de 2019, uma mulher de 26 anos abandonou o filho, de 8, no terminal rodoviário de Itacibá, em Cariacica, Espírito Santo. Questionada posteriormente pela polícia, ela alegou ter feito isso porque “havia se cansado dele”. O menino, por sua vez, contou que a mãe o agredia frequentemente com mangueira e pedaços de madeira; e comemorou a possibilidade de dormir na delegacia, longe dela. A mulher foi autuada por abandono de incapaz e o Conselho Tutelar foi acionado. No início de 2020, houve duas outras ocorrências ainda mais chocantes, também envolvendo crimes por parte da mães – as duas no Distrito Federal. Uma delas, em janeiro, foi a de uma moça de 23 anos que estrangulou seu bebê recém-nascido e, em seguida, tirou a própria vida. Um mês depois, uma jovem de 21 anos foi acusada de ter matado a filha, de 2 anos e 2 meses, em Vicente Pires, região rural de Brasília. 

São casos extremos e criminosos, que poderiam ser considerados exceções; ações cometidas por mulheres “loucas”, “fora da curva”. Entretanto, o descaso das mães com relação a seus filhos é algo mais comum do que gostaríamos de admitir. Existe o abandono escrachado, que vira notícia nas páginas policiais – como o dessa mãe que largou o menino na rodoviária; mas há também o ato silencioso, quase invisível, que, muitas vezes, só os próprios filhos têm conhecimento: o da mãe que nunca dispõe de tempo para eles e os terceiriza para o colégio, avós, babás; ou que não reconhece o valor da criança e a critica constantemente, como se ela fosse a origem de seus problemas. 

Diante dessas evidências, fica claro que essas mulheres não deveriam ter tido filhos; talvez a vida delas realmente fosse mais feliz sem eles. Mas, então, por que tiveram? Em tempos nos quais a tecnologia dá todo o suporte para evitar a concepção – desde camisinha até anticoncepcionais modernos, com baixíssimos efeitos colaterais –, por que elas insistiram nesse projeto? O fato é que, em pleno século XXI, mesmo com a emancipação feminina dos últimos anos, em uma época no qual “não é não”, ainda existe uma pressão cultural para que as mulheres procriem; e muitas, até sem se dar conta, acabam acreditando que essa realmente é a função delas. Se isso vai de encontro com o que a pessoa deseja, ou seja, se já existia o sonho de ser mãe, está tudo ok. O imbróglio acontece quando, ao contrário, ela não quer. Mesmo com todos os avanços sociais, uma mulher que decide não gerar uma criança ainda é vista de maneira preconceituosa não apenas por estranhos, mas, muitas vezes, dentro do próprio ambiente familiar. Quantas mulheres não começaram a ser cobradas pelos parentes para ter um filho logo após se casar? Ou depois de completar 30 anos – pois, se demorassem muito, poderiam “passar da idade”? 

A ideia da supermãe carinhosa e responsável pela criação dos filhos nem sempre existiu, é bom que fique claro. Segundo historiadores, na Idade Média, as crianças eram consideradas adultos em miniatura; quando completavam 7 anos, juntavam-se aos mais velhos na força de trabalho. O afeto não importava; os menores eram vistos como seres meramente biológicos. A preocupação com a infância e, consequentemente, com os cuidados às crianças, só surgiu a partir da consolidação da Modernidade e da ascensão da burguesia na Europa, classe que enxergou a necessidade de se moralizar a criança por meio da educação e dos cuidados por parte das famílias, para que ela tivesse um papel social.

No texto “Infância e Educação no Brasil Nascente”, de 2005, a pedagoga e pesquisadora em Educação Mabel Farias escreve que, na sociedade colonial brasileira patriarcalista e escravocrata, não havia espaço privilegiado para as crianças. Além disso, elas não eram tratadas de maneira afetuosa pela família – nem pelas suas mães. No caso dos filhos dos escravos, a situação era ainda pior: as mulheres eram obrigadas a amamentar e a criar os bebês de suas patroas. Ocorria, aí, um abandono duplo: por parte das mães negras, que não podiam sequer dar de mamar a seus próprios filhos; e das mães brancas, que deixavam suas crias aos cuidados das escravas. 

Se a exigência imposta à mulher, de ser a mãe perfeita, surgiu apenas na contemporaneidade (ou seja, não existe desde que o mundo é mundo), por que, nos dias atuais, diante de tantos avanços sociais conquistados – incluindo aí a luta pela equidade de gêneros –, ela ainda é rechaçada caso demonstre não ter “vocação” para a maternidade? Nem toda mulher “nasceu” para ser mãe; e isso não deveria ser um problema. Se as mulheres se sentissem menos cobradas em exercer esse papel, talvez crimes hediondos como os citados nesse artigo se tornassem cada vez mais raros.