Por que nos interessamos tanto pela previsão do tempo?

Quando eu era editora da Vejinha São Paulo, tinha de fazer plantão no site em alguns fins de semana. A ideia era publicar o máximo de notícias que dessem audiência. Em um deles, bati um recorde, graças a uma publicação sobre… previsão do tempo! Era um informe sobre uma mudança climática: estava chegando uma frente fria, que iria mudar o cenário ensolarado; o dia seguinte seria nublado e chuvoso. Tanta gente clicou nesse link que garanti bons resultados para o plantão inteiro. A partir desse episódio, comecei a prestar mais atenção nesse tema. 

Percebi que os noticiários de TV estavam investindo mais no assunto, com quadros longos e interativos. A “mulher” ou o “homem” do tempo eram as estrelas do noticiário — o melhor exemplo é a Maju Coutinho, queridinha da Globo que virou âncora do Jornal Hoje. Achei uma informação interessante sobre isso: um levantamento recente feito por estudantes de Jornalismo da Universidade da Região da Campanha (URCAMP), em Bagé, Rio Grande do Sul, para averiguar de que forma o Jornalismo Meteorológico é abordado nos telejornais da Rede Globo. Em um dos dias analisados, o Hora Um, que vai ao ar de madrugada, dedicou 14,21% do espaço de seu programa para esse tema. Em outro, constatou-se que o Jornal Nacional, o mais nobre da emissora, reservou quase 5% de seu tempo à previsão meteorológica. É um assunto que ganhou destaque a partir dos anos 2000, com o aumento dos debates sobre as mudanças climáticas e o risco de catástrofes naturais.

Li em um site um artigo que analisava o motivo pelo qual a previsão do tempo havia ganhado tanta importância em nossa sociedade. De acordo com a reportagem, as emissoras estão investindo mais nesse conteúdo porque, na era da internet, é muito difícil conseguir furos jornalísticos; e há um grande interesse pelo tema por se tratar de prestação de serviço. Concordo com essa tese, mas acho que existe também uma explicação emocional para o fenômeno. Em uma época na qual as mudanças ocorrem em velocidade astronômica, a sensação de que não temos o controle de nada torna-se gritante. Isso nos deixa desamparados e angustiados. Assim, qualquer possibilidade que nos dê a sensação de conseguirmos dominar uma situação indomável nos deixa um pouco mais seguros — ainda que seja uma mera ilusão; afinal, a tempestade vai acontecer independentemente de descobrirmos isso com antecedência. Tome-se como exemplo as chuvas que devastaram Belo Horizonte na segunda quinzena de janeiro, ou a megaenchente que parou São Paulo no dia 10 de fevereiro.

Saber previamente que o tempo “vai virar” também ajuda a nos precaver: levar uma blusa caso a temperatura caia; evitar áreas suscetíveis a enchentes; planejar o fim de semana no litoral. A possibilidade de precaução nos coloca, de alguma maneira, no controle e, consequentemente, em uma zona de conforto, o que garante certo bem-estar. Sob o ponto de vista psicológico, aquela frase: “Será que vai chover?” é mais do que um artifício para puxar papo quando não se tem nada a dizer; trata-se de uma tentativa de acomodar um fenômeno incerto em uma “caixinha” conhecida, que garanta nossa sanidade mental ao menos naquele momento.