Como saber quando é a hora de desapegar?

Em um capítulo da novela das 9 da Globo, “Amor de Mãe”, que foi ao ar no fim de janeiro, a personagem Thelma, vivida por Adriana Esteves, com muito pesar, assina o contrato de venda de seu restaurante, herança de família. Quem acompanha a novela sabe que ela está sendo enganada pelo vilão Álvaro (Irandhir Santos) e que, provavelmente, vai recuperar seu bem de maneira triunfante antes do final do folhetim. Mas eu quis destacar o episódio neste artigo porque trata-se de uma situação muito comum no nosso dia a dia. Quem nunca passou por um momento no qual precisou decidir se era a ocasião correta para se desfazer de algo que já fazia parte de seu cotidiano há tempos? Pode ser um negócio tocado pela família por gerações; uma carreira estagnada; um relacionamento falido. Como saber quando é a hora de desapegar?

Antes de mais nada, é preciso ter em mente que a vida está em constante evolução. Tudo muda o tempo todo, a cada minuto, a cada segundo. Somos diferentes do que fomos ontem e, certamente, mudaremos novamente amanhã. Estamos sempre nos transformando. Segundo o filósofo Jean-Paul Sartre, o homem é condenado a ser livre e sua existência decorre dessa condição. A liberdade o obriga a fazer escolhas para construir sua essência; como consequência disso, ele precisa se reinventar constantemente. Assim, o que num passado remoto era importante em nossas vidas – tocar o restaurante fundado pelos avós, por exemplo – pode deixar de fazer sentido algum tempo depois porque não somos mais a mesma pessoa do passado. Nossos interesses se modificam; sonhos e planos também. Nós nos reinventamos de diversas formas. 

Em um relacionamento afetivo, a situação é ainda mais complicada; afinal, são dois indivíduos se transformando ininterruptamente; e nem sempre o caminho escolhido por eles é um ponto em comum. Isso quer dizer que devemos “partir para novos desafios” quando percebemos esse impasse? Não necessariamente. Não existe uma única regra; cada caso é muito particular. Um casal, ao dar-se conta de que os interesses não são mais os mesmos, pode concluir que é melhor romper; ou então, encarar essa realidade de frente e, junto, refazer a relação. O “segredo” de muita gente bem casada há décadas é justamente esse: reinventar-se de tempos em tempos de maneira que os desejos sejam convergentes. 

Isso vale também para quem está em dúvida se deve se desfazer de um bem, como na história de Thelma e seu restaurante. A primeira providência, nesse caso, é olhar para as mudanças ao redor e aceitar que a realidade de tempos atrás não existe mais. Ao encarar essa realidade, o negócio ainda faz sentido? Se fizer, pode não ser a hora de se desfazer; ainda assim, é preciso se reinventar. No caso de Thelma, se ela estivesse no mundo real, seria imprescindível adaptar o restaurante para os dias atuais, talvez deixando o cardápio mais compacto e o ambiente mais moderno e arejado. Resumindo: o mundo está sempre mudando; e nós precisamos mudar com ele. Afinal, não somos estáticos e sim, dinâmicos. Se tivermos consciência disso, tomaremos a decisão correta independentemente de qual for a situação.