Sexo na adolescência: por que não é legal

É fato que nossos jovens estão iniciando a vida sexualmente ativa cada vez mais cedo. Segundo a pesquisa Mosaico 2.0, coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, a primeira relação sexual vem ocorrendo entre 13 e 17 anos, boa parte das vezes com parceiros casuais, os chamados crushes. Muitos de meus pacientes que possuem filhos adolescentes têm se mostrado angustiados diante desse quadro: devem olhar a situação com naturalidade, os deixando à vontade para agir de acordo com a sociedade atual? Ou precisam colocar limites, estipulando idade e condições para começar? 

Antes de mais nada, é bom que fique claro: uma coisa é a sexualidade em si, qualidade inerente do ser humano, que deve ser tratada com naturalidade. É saudável e até recomendável conversar sobre o assunto, desde a idade mais tenra, usando uma linguagem adequada de acordo com a faixa etária da criança. Uma menina de 4 ou 5 anos, por exemplo, terá curiosidade de entender seu próprio corpo, e isso poderá ser explicado de maneira didática, sem tabus. Quanto mais esclarecido o sujeito estiver sobre o assunto, mais ele tenderá a agir com responsabilidade no futuro.

Outra coisa, bem diferente, é tratar com naturalidade o ato sexual precoce, Existe, sem dúvida, o risco de gravidez indesejada e contração de doenças sexualmente transmissíveis; e essas questões devem ser debatidas e prevenidas. Mas as complicações vão além disso. A adolescência é uma fase importantíssima na vida de um indivíduo; é quando ocorre a transição da infância para a vida adulta, que definirá que papel social esse indivíduo exercerá dali em diante. Trata-se do momento no qual o jovem estabelece relações sociais, erra e aprende com os próprios erros e experimenta sensações novas. Serão as escolhas nesse estágio que garantirão sua produtividade e maturidade. 

Encarar todas as mudanças dessa etapa, somadas ao acúmulo de atividades próprias da idade — cultivar amigos, dar conta das tarefas escolares, lidar com conflitos, diferenciar-se dos pais – é uma grande fonte de angústia e stress. E a prática de relações sexuais torna-se um estressor a mais, pois exige um investimento de energia (preocupação com a aparência física, escolha do parceiro, como, onde e quando fazer, questões de saúde etc.) que não está previsto nessa fase da vida. Ao incluir o sexo em seu cotidiano, o jovem corre o risco de desviar a atenção do que realmente importa nessa faixa etária: a construção de sua identidade. Segundo o psicanalista alemão Erik Homburger Erikson, autor da Teoria do Desenvolvimento Psicossocial, essa construção implica em definir quem se é, de fato; quais são seus valores; e as direções que se deseja seguir dali em diante.

Isso não significa que se deva proibir o sexo; uma medida radical pode ser mal interpretada pelo adolescente e, se ele não compreender e internalizar o motivo do veto, não o respeitará. A melhor solução, nesse caso, é conversar abertamente sobre o assunto, quantas vezes forem necessárias. Se os filhos perceberem que os pais realmente se preocupam com eles; que têm uma posição firme; e que a defendem com bons argumentos, eles se sentirão seguros e certamente levarão isso em conta não apenas antes de ter relações sexuais, e sim antes de tomar qualquer atitude perante a vida.