Como nos tornamos escravos da felicidade

Nos dias atuais, as principais reclamações que chegam ao consultório são ansiedade; crises de pânico; e depressão. De cada dez pacientes que atendo em triagem semanalmente, nove apontam algum desses três fatores como o grande motivo de seus problemas. Ao conversar um pouco mais para entender o que se passa com eles, surge, então, uma nova queixa: a frustração por não ser feliz o tempo todo. Essa ausência de felicidade contínua, segundo eles, seria o gatilho para esses sintomas.

Não é de hoje que o homem busca entender o que é felicidade e como obtê-la. As primeiras reflexões sobre o tema remontam à Grécia Antiga. Segundo Sócrates, trata-se do bem da alma obtido por uma conduta virtuosa e justa. Para Aristóteles, é na capacidade de pensar, a maior virtude do homem, que reside a sua felicidade. Mas a verdade é que, independentemente do significado que se atribui a esse estado de espírito, ninguém é feliz em período integral. Um sujeito pode sentir-se dessa maneira quando o filho pequeno entra no quarto e sorri – e ele se lembra que tem uma família “linda”; e profundamente angustiado ao levar uma bronca do chefe e perceber que não se sente realizado profissionalmente. Tudo isso em um mesmo dia, com poucas horas de diferença. Ouso dizer que a felicidade não é plena; ela só existe porque há também os momentos de tristeza, de tribulação, de dor. De manhã estamos felizes; na hora do almoço, deprimidos; à tarde, entediados; e à noite, poderemos estar felizes novamente. Ou não. Assim é a vida. 

No entanto, predomina atualmente uma crença de que há algo errado com quem não está em êxito 24 horas por dia. O indivíduo faz de tudo para buscar essa falsa plenitude e não consegue; então, frustra-se e passa a sentir-se ansioso com frequência; com taquicardia e falta de ar; e, em casos mais graves, desenvolve a depressão. Durante as minipalestras que ministrei com outros colegas de Psicologia para pacientes dos setores de Reumatologia e Pneumologia do Hospital das Clínicas (HC) em 2019, eu costumava falar sobre isso; e os presentes sempre se mostravam admirados, como se o fato de ninguém ser feliz 100% do tempo fosse uma revelação incrível. Uma senhora me disse, certa vez: “Isso que você está dizendo me dá um grande alívio, pois me sinto cobrada por ter uma família que me ama e, ainda assim, me sentir muitas vezes desamparada.” 

Essa obrigatoriedade de se estar constantemente satisfeito, a meu ver, se deve a dois fatores primordiais. Um deles é a ampla exposição da vida pessoal nas redes sociais. Nelas, não são exibidos todos os momentos do dia a dia e sim, apenas os “de dar inveja”: a viagem a dois para um lugar paradisíaco; o filho pequeno fazendo alguma arte; o corpão conquistado após meses de dieta e exercícios físicos. Virou uma competição velada para mostrar quem é mais bem-sucedido. Aí, nós, reles mortais, olhamos para aquelas postagens maravilhosas na linha do tempo do Facebook ou no Instagram e nos sentimos péssimos porque não temos esse cotidiano perfeito. Ocorre que, em boa parte dos casos, o sujeito que publicou a imagem também não tem; divulgar cenas bonitas repetidamente é um modo de preencher o vazio interior. 

Outro fator que contribui para esse fenômeno é o excesso de conselhos e táticas à disposição para se obter o sucesso. Basta olhar as prateleiras das livrarias lotadas de livros de autoajuda ensinando como ser feliz em poucas lições, ou as dezenas de cursos e consultorias especializadas em levar o sujeito ao êxito. Não é todo mundo que consegue se dar bem seguindo as dicas “milagrosas”; na verdade, é um número ínfimo que chega lá. Aí, o ciclo se repete: quem não obtém sucesso se frustra e passa a viver angustiado, com crises de ansiedade.

Qual é a cura para esse vazio existencial, se não for pela tentativa de ser feliz o tempo todo? Infelizmente, não há. Essa sensação é inerente do ser humano; não tem como se livrar dela de maneira definitiva. No entanto, ter consciência de que a solução mágica não existe e aceitar a realidade que está ao seu redor como ela é, com todos os seus defeitos e limitações, é o primeiro passo para se viver bem de verdade.